segunda-feira, 15 de julho de 2013

Dona Durvalina


                Essa é Dona Durvalina (essa, a do fundo). Ela é uma senhora um tanto peculiar. Ainda assim, ela tem um que um tanto universal. Um que de mãezona, sabe? Não de mãe, simplesmente, de mãezona. Aquela avó-matriarca que está sempre por trás do bom funcionamento da família, da casa, do jantar. Aquela que está sempre por trás de tudo, mas que não faz questão de louros: só quer ver todo mundo feliz. Aquela mãezona que não derrama sua afetividade assim de graça, mas ama profundamente todos os membros de sua família e mantém sempre o olhar atento sobre todos. E é por isso que ela é a grande peça chave dessas histórias que vivemos e conhecemos na Comunidade do Mola… por isso, também, que ela não aparece em quase nenhuma delas.
                Dona Durvalina nos recebeu em sua casa enroladinha na toalha. Recém saíra do banho quando soube que seus hospedes estavam ali. Ao mesmo tempo em que, sem cerimonias, se colocou a nos receber, não interrompeu suas atividades - o que mesmo fazia, na varanda da casa, enquanto se apresentava e derramava sua hospitalidade (ainda tímida) naqueles dois forasteiros?
                Em seguida saímos de sua companhia para conhecer um outro senhor, o Coelho. Era a segunda pessoa de uma grande sequência que conheceríamos que teria muito o que contar. Se sentia a vontade diante da câmera e derramava sua histórias. Interessantes, sem dúvida - falamos delas mais tarde, vai saber? - mas o tal do Coelho nem tinha nascido no Mola e falava da comunidade com autoridade de pajé. Dona Durvalina não, tanto é que nem conversamos com ela sobre sua história no primeiro dia e só o fizemos no segundo pela advertência do nosso "guia", o Tiuí, que avisou que ela tinha muito pra contar. Na verdade, sua postura sempre presente mas pouco visível fez com que só pensássemos em fotografá-la as sete e meia da manhã  do dia seguinte, quando saía pra roça. “Ah, mas assim, desse jeito?”, respondeu, quando pedimos autorização para sacar a foto.
                Aí só fomos encontrá-la várias horas depois. ά roça de mandioca só se chegava de barco e ela passou umas boas horas lá. Chegou, suada, mas nem sequer sentou: se pôs a preparar o almoço que serviu primeiro para as crianças e depois nos ofereceu perguntando, preocupada, se comíamos conserva. Ela sabia que havíamos trazido nossa própria comida, que não queríamos dar trabalho - no dia anterior já tinha nos dado uma bronca bem humorada quando montamos o fogareiro e fizemos um macarrão ao relento. Mas apenas com um olhar recusou nossa recusa, como quem diz: vocês são meus hóspedes, nem pensem nisso.
                Depois de encarar a roça e o fogão, chamamos Durvalina para uma entrevista. Ela aceitou sem olhar pra mim, um tanto tímida. E não se sentou, ficou encostada, assim, no batente da porta. Será que não cansa, essa mulher? Talvez por isso tem a pele um pouco envelhecida e aparenta ser uma senhora de idade, quando na verdade ainda não completou sessenta. A vida de roça, talvez, tirou-lhe alguns anos de juventude cutânea, mas suas histórias demonstram que, se Deus quiser, ainda vive muito. Os que vieram antes dela, parece, colheram bons frutos da alimentação simples e pura, da água de poço ou, talvez, mesmo do trabalho.  As histórias falam de avós e bisavós que viveram mais de cem anos. E as histórias são muitas, as que tive a rapidez de gravar e as que ficaram suscetíveis ύ memória. Ela viu o Mola em seu apogeu (“Quando me entendi, viviam aqui mais de 50 famílias”). Depois, viu os anciões morrendo, os jovens partindo para estudar na cidade. Afinal, como ela mesma diz, foi nascida, criada, criou oito filhos e um tanto de netos e até hoje vive na vila, chefiando uma das sete famílias que permanecem na pequena povoação.
                Dona Durvalina diz que não sai de lá por nada, mas também não lamenta o encolhimento da comunidade ou a saída dos jovens. Em especial de seus filhos. Afinal, se fica doente, com apenas uma ligação telefônica mobiliza boa parcela dos 7 filhos que vivem fora. Segundo ela, em menos de uma hora. Todos acodem rapidinho para dar suporte à
Durvalina. Também, pudera, com uma mãezona dessas...


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