Essa é Dona Durvalina (essa, a do fundo). Ela é uma senhora um tanto
peculiar. Ainda assim, ela tem um que um tanto universal. Um que de mãezona,
sabe? Não de mãe, simplesmente, de mãezona. Aquela avó-matriarca que está
sempre por trás do bom funcionamento da família, da casa, do jantar. Aquela que
está sempre por trás de tudo, mas que não faz questão de louros: só quer ver
todo mundo feliz. Aquela mãezona que não derrama sua afetividade assim de graça,
mas ama profundamente todos os membros de sua família e mantém sempre o olhar
atento sobre todos. E é por isso que ela é a grande peça chave dessas histórias
que vivemos e conhecemos na Comunidade do Mola… por isso, também, que ela não
aparece em quase nenhuma delas.
Dona Durvalina nos recebeu em sua casa enroladinha na
toalha. Recém saíra do banho quando soube que seus hospedes estavam ali. Ao
mesmo tempo em que, sem cerimonias, se colocou a nos receber, não interrompeu
suas atividades - o que mesmo fazia, na varanda da casa, enquanto se
apresentava e derramava sua hospitalidade (ainda tímida) naqueles dois
forasteiros?
Em seguida saímos de sua companhia para conhecer um
outro senhor, o Coelho. Era a segunda pessoa de uma grande sequência que conheceríamos
que teria muito o que contar. Se sentia a vontade diante da câmera e derramava
sua histórias. Interessantes, sem dúvida - falamos delas mais tarde, vai saber?
- mas o tal do Coelho nem tinha nascido no Mola e falava da comunidade com
autoridade de pajé. Dona Durvalina não, tanto é que nem conversamos com ela
sobre sua história no primeiro dia e só o fizemos no segundo pela advertência
do nosso "guia", o Tiuí, que avisou que ela tinha muito pra contar.
Na verdade, sua postura sempre presente mas pouco visível fez com que só pensássemos
em fotografá-la as sete e meia da manhã
do dia seguinte, quando saía pra roça. “Ah, mas assim, desse jeito?”,
respondeu, quando pedimos autorização para sacar a foto.
Aí só fomos encontrá-la várias horas depois. ά roça
de mandioca só se chegava de barco e ela passou umas boas horas lá. Chegou,
suada, mas nem sequer sentou: se pôs a preparar o almoço que serviu primeiro
para as crianças e depois nos ofereceu perguntando, preocupada, se comíamos
conserva. Ela sabia que havíamos trazido nossa própria comida, que não queríamos
dar trabalho - no dia anterior já tinha nos dado uma bronca bem humorada quando
montamos o fogareiro e fizemos um macarrão ao relento. Mas apenas com um olhar
recusou nossa recusa, como quem diz: vocês são meus hóspedes, nem pensem nisso.
Depois de encarar a roça e o fogão, chamamos
Durvalina para uma entrevista. Ela aceitou sem olhar pra mim, um tanto tímida.
E não se sentou, ficou encostada, assim, no batente da porta. Será que não
cansa, essa mulher? Talvez por isso tem a pele um pouco envelhecida e aparenta
ser uma senhora de idade, quando na verdade ainda não completou sessenta. A
vida de roça, talvez, tirou-lhe alguns anos de juventude cutânea, mas suas histórias
demonstram que, se Deus quiser, ainda vive muito. Os que vieram antes dela,
parece, colheram bons frutos da alimentação simples e pura, da água de poço ou,
talvez, mesmo do trabalho. As histórias
falam de avós e bisavós que viveram mais de cem anos. E as histórias são
muitas, as que tive a rapidez de gravar e as que ficaram suscetíveis ύ memória.
Ela viu o Mola em seu apogeu (“Quando me entendi, viviam aqui mais de 50 famílias”).
Depois, viu os anciões morrendo, os jovens partindo para estudar na cidade.
Afinal, como ela mesma diz, foi nascida, criada, criou oito filhos e um tanto
de netos e até hoje vive na vila, chefiando uma das sete famílias que
permanecem na pequena povoação.
Dona Durvalina diz que não sai de lá por nada, mas
também não lamenta o encolhimento da comunidade ou a saída dos jovens. Em
especial de seus filhos. Afinal, se fica doente, com apenas uma ligação telefônica
mobiliza boa parcela dos 7 filhos que vivem fora. Segundo ela, em menos de uma
hora. Todos acodem rapidinho para dar suporte à
Durvalina. Também, pudera, com
uma mãezona dessas...
Nenhum comentário:
Postar um comentário