terça-feira, 23 de julho de 2013

E o Mola, o que é que é?

  Se eu fosse escrever uma crônica sobre a Comunidade do Mola ela seria uma crônica sobre educação. Isso por dois motivos. Primeiro porque, se tirarmos a educação informal, a transmissão oral da memória, a cultura passa de pai para filho, o Mola passa a ser igual a qualquer outra comunidade rural pobre do Pará. Uma comunidade em que se vive da mandioca, em que se está cercado por rio, em que se vive em casas simples de madeira e se dorme em redes. Mas não, o Mola não é só isso. O Mola é o que restou e permaneceu de um Quilombo que remete ao século XVIII. No mola, as crianças não crescem ouvindo falar em bicho papão. Crescem ouvindo que, se saírem de casa a noite, podem dar de cara com o pega-pega. Muitas delas só vão descobrir anos depois que esse pega-pega é uma referência ao capataz que ia atrás dos "negros fugidos". Muitas dessas crianças vão descobrir somente quando crescem que vivem em uma comunidade que foi formada por negros escravizados, que resistiram e fugiram. De tão acostumados com a vida no rio, podem nem perceber que só é possível entrar no igarapé que leva ao mola em certo horário do dia - o que um dia dificultou o trabalho do pega-pega. Muitas vezes tudo isso só se torna consciente com o trabalho de pesquisadores que vem de fora para conhecer a história do Mola. Esse trabalho dos pesquisadores, inclusive, foi uma forma de educação - não somente para mostrar a história que existe, mas para mostrar que ela é motivo de orgulho. Para que, quando chegam a cidade, os jovens do Mola não se sintam intimidados com qualquer tipo de preconceito e possam bater no peito e dizer: eu vim de uma comunidade Quilombola. 
  Aliás, com isso chegamos ao segundo motivo pelo qual uma crônica do Mola seria uma crônica sobre educação. Porque as crianças, quando concluem os anos iniciais do Ensino Fundamental, precisar estudar na comunidade vizinha ou na cidade. E se desejam continuar, cursando o ensino médio, são obrigadas a fazê-lo na cidade. Na Comunidade existe apenas uma escola, classificada como isolada pelos orgãos responsáveis, que funciona em um sistema multisseriado. Crianças de 4 a 11 anos estudam juntas, em uma mesma sala, com um só professor. Um professor que, muitas vezes, concluiu apenas o magistério. Mas, ainda assim a escola é vista como peça chave e a alfabetização é quase um marco na vida da criança. Segundo a professora Celeste, que estuda as comunidades da região, a escolarização formal é vista com uma forma de alcançar o nível do escravizador, adquirir a cultura do dominador e poder estar diante dele de igual pra igual. Faz sentido. Talvez por isso a grande maioria dos que concluem o Ensino Fundamental, de fato vão cursar o Médio na cidade. E por isso a crônica do Mola fala de educação: Porque os velhos morrem, os jovens vão para a cidade em busca de educação e o Mola vai diminuindo. A Dona Durvalina, que viu a comunidade florescida, lembra de mais de 50 famílias, a região toda repleta de casas. Mas o Mola minguou, hoje restam apenas 7 famílias.

  Ou seja, a educação, no Mola, é motor do florescimento cultural e pontapé para o possível desaparecimento da comunidade. A educação é quase o começo e o fim, o A e o Z. Por isso uma crônica sobre o Mola só poderia ser uma crônica sobre educação. Isso se eu fosse escrevê-la. 


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