terça-feira, 16 de julho de 2013

Gringo Feelings

                Não é a primeira vez em que me sinto gringa. O sentimento de not belonging, já diria o poeta, é mesmo o sentimento da época em que vivemos. Essa sensação de estranhamento já me acompanhou em diversos lugares: nas ruas de Jerusalém, com minhas roupas curtas, nas ruas de Paris, com meu não-falar-francês ou nas ruas de Roma, com minha delicadeza em não saber lidar com os italianos. O mundo é mesmo um lugar encantador e estranho.
                Não é a primeira vez, também, em que me sinto gringa em meu próprio país. Com minha ascendência judaico-européia transparecendo por todo os lados, já fui confundida com as mais diversas nacionalidades. Em Salvador fui acompanhada por esse gringo feeling aonde quer que eu fosse. O auge, como não poderia deixar de ser, se deu nas ruelas do pelourinho. A cada passo uma oferta de pulseirinha - “é presente!” -, colar, visita guiada, passada de perna. Perdi dois reais para uma dessas histórias de ONG e fui solicitada a dar os outros dez que estavam na minha carteira. Na minha total incapacidade de dizer não aliada ao imã da minha brancura, levei as mais diversas rasteiras.
                Mas não no Pará. Não na amazônia tocantina, ao menos. Aqui, nas ruas, lidei com o extremo de ser simplesmente estranha. Lidei com um olhar de quem-é-você-e-por-que-está-aqui-afinal, uma total incompreensão; Os cidadãos cametaenses, ao contrário dos soteropolitanos, não tiram proveito dos turistas. Não sabem tirar proveito dos turistas. Praticamente desconhecem essa categoria de ser humano - já a conheceram, mas nunca tiveram que lidar com ela. Quando o contato comigo chegou a acontecer, presenciei duas alternativas: a famosa pedreiragem masculina  (universal? latina?) ou uma outra postura, difícil de definir. Diria que é herdeira de alguma longa história que faz o brasileiro, especialmente o interiorano e pobre, sentir-se inferior e mesmo servil diante do diferente. Diante do homem da cidade, do “doutor”, do estrangeiro.
                Notei pela primeira vez algo assim quando, na farmácia, solicitei uma caixa de complexo B - minha ascendência judaico-européia me faz pouco preparada para o mato e os insetos - e me foi indicada a prateleira ao lado por um rapaz simpático. Me pus a analisar os diferentes frascos quando, de repente, noto que o rapaz segue ao meu lado, me olhando com um sorriso, como que aguardando novas instruções. Lamentando não ser uma avestruz, retornei seu sorriso com o menos tímido que me surgiu no momento. “Você não é brasileira, né?”, perguntou. “Hã hã, sou sim. Sou do sul.”, respondi. “Ah, é que tenho um amigo holandês e a filha...”, continuou explicando, mas minha cabeça já estava absorta em um quebra cabeça que me perguntava “o que (the fuck) está acontecendo?”.
                Mais além, no dia seguinte, tomamos um barco para uma vila, daonde pegaríamos um mototáxi que nos levaria à comunidade Quilombola. No barco um senhor estrábico, de uniforme completo do Vasco, pele negra e cabelo branco, parou diante de nós - eu e meu irmão, professor de uma universidade local. O senhor ficou nos olhando com um sorriso no rosto. Devolvemos com mais um sorriso tímido e uma saudação de cabeça. O senhor, de alguma forma, sabia quem eramos. “Tudo bom, professor?”, perguntou. Iniciou-se uma conversa, logo o senhor se abancou, e começou a narrar as mais diversas peripécias. Quem sabe conto as aventuras desse senhor, o João Antônio, mais além. Mas a verdade é que mais  adiante na viagem muito do que ele contou foi posto em dúvida pelos amigos que fomos fazendo. Mas o que marcou mesmo a conversa foi o seu real objetivo: conseguir patrocínio para o time de futebol de que era presidente. Aí você talvez pense: bom, se é assim, estamos falando do mesmo tipo de relação com gringos que vemos nas capitais do nordeste, ele só veio falar com vocês para lhes passar a perna! De fato, é possível. Aparentemente a malandragem estava mais aprimorada nesse senhor vascaíno. Nem ao menos sabemos se o time, como a ONG soteropolitana, existia de verdade. O curioso foi a postura de respeito com que ele se pôs diante de nós. O curioso foi ele pensar que ninguém melhor para patrocinar algo do que um professor. Sim, o professor no topo da pirâmide social. O curioso foi ele, depois de já ter tirado vinte reais do seu novo patrocinador, seguir dissertando sobre a honra que seria para um time da copa rural ter o nome de um professor no seu uniforme. O curioso foi, depois de ele arranjar uma desculpa para se retirar, voltar perguntando - gritando no meu ouvido e me tirando, assustada, do transe de olhar o rio Tocantins - onde estava o professor. Aproveitou para me perguntar se era sua esposa e teria estabelecido uma nova prosa se eu não o tivesse desanimado com minha cara de sono. “Não, sou irmã dele”.
                  Descendo do barco encontramos nosso guia - esse sim merecerá uma história a parte, sem dúvida. Cumprimentamos o rapaz e meu irmão saiu atrás de uma água ou uma coca-cola. Nada. Estava tudo fechado, as 13h30, na Vila do Juaba. Eu disse que ia procurar um banheiro e saí. Nosso guia gritou para que esperasse e mandou uma moça me levar para usar o banheiro de sua casa - não havia rastro de banheiro público no local. A moça me acompanhou, os sorrisos tímidos e sem reação se multiplicavam. Caminhamos 10 passos ao longo do trapiche e chegamos a uma porta, no próprio trapiche, aonde a moça morava. Abriu a porta e vi que a casa era da estreiteza da porta. Vi, também, que seu marido dormia em uma rede atravessada na entrada. Ela olhou a cena e julgou que eu não poderia me submeter a usar o banheiro naquelas condições. Me levou ao outro lado do trapiche para que o fizesse na casa de sua vizinha. A vizinha consentiu, nervosa - “Está um pouco bagunçado, me desculpe” -, entrando no banheiro para recolher peças de roupa íntima. Eu, depois de usar o banheiro e agradecer imensamente, descubro que a primeira moça, a da casa-porta, ainda me aguarda para me ciceronear de volta à boca do trapiche. Tudo, sempre, com aquele mesmo sorriso: simpático, estático, tímido e - infelizmente- com um toque subalterno.
                Na comunidade que visitamos a história foi outra - um estudo antropológico a parte, especialmente de nós mesmo-, mas logo de volta me senti gringa de novo. O sentimento é constante, se saio de casa sozinha já visto um carranca e um óculos de cavalo, pra evitar constrangimento. Hoje mesmo, voltando do bar, atravessei no meio de um grupo que, como é de costume, ocupava a calçada inteira com seu evento social e sua cadeiras de plástico. Uma morena, ao me ver passar, torceu o pescoço até a última gota com um olhar assustado.  Vendo seus olhos me dei conta: não é a primeira vez que me olham como gringa no meu próprio país, mas é, definitivamente, a primeira vez que me olham como extraterrestre no meu próprio planeta.
               

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